Consumir sempre fez parte da nossa vida. Todo mundo precisa comprar coisas, escolher serviços, desejar algo novo de vez em quando. Mas hoje o consumo parece ir muito além disso. Ele não serve apenas para atender necessidades, mas também para dizer quem somos, o que valorizamos e até como queremos ser vistos.
A pesquisadora Isleide Arruda Fontenelle chama esse fenômeno de cultura do consumo. Em outras palavras, vivemos em uma sociedade em que produtos e marcas não vendem só utilidade. Vendem ideias, sentimentos e promessas, e não se compra apenas um tênis, por exemplo, mas juventude, estilo, pertencimento... Não se compra apenas um creme, mas autocuidado e autoestima.
Com as redes sociais, isso ficou ainda mais intenso. Somos impactados o tempo todo por anúncios, tendências e imagens de vidas aparentemente perfeitas. Aos poucos, pode surgir a sensação de que comprar algo novo vai trazer felicidade, resolver incômodos ou preencher algum vazio. Até escolhas que parecem críticas, como consumir de forma sustentável, às vezes também entram nessa lógica e viram mais uma forma de identidade.
O problema não está no ato de consumir em si, mas no lugar que ele ocupa na vida de cada pessoa. Quando comprar vira a principal forma de aliviar ansiedade, lidar com frustrações ou buscar prazer, o ciclo pode se tornar desgastante. A satisfação costuma ser rápida e passageira, o que leva à vontade de comprar de novo. Depois, podem aparecer culpa, dívidas e sensação de vazio. Não por acaso, uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo mostrou que 78,2% das famílias brasileiras estavam endividadas em dezembro de 2025.
Pela ótica da Análise do Comportamento, isso pode ser entendido de forma bastante prática. Se comprar traz prazer imediato ou alívio emocional, é natural que esse comportamento se repita. Além disso, o ambiente inteiro incentiva isso: promoções, notificações, descontos relâmpagos e a comparação constante com outras pessoas.
É aí que entra o trabalho do terapeuta. Mais do que criticar escolhas ou falar em “certo” e “errado”, o objetivo é ajudar a pessoa a entender a função que o consumo tem na sua vida. O que ela busca quando compra? Alívio? Reconhecimento? Distração? A partir dessa compreensão, é possível construir outras formas de cuidado e satisfação. No fim, a ideia não é parar de consumir, mas fazer escolhas mais conscientes e menos guiadas pela pressão de preencher vazios com mercadorias.
Fontes: Fundação Getúlio Vargas, Revista Brasileira de Marketing, Fecomércio

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